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    DEPOIS DOS 40

    Daqui uns dias completo 46 anos. Isso é significativo para mim. A vida depois dos 40 é emblemática.

    Estava num show de death core dia desses e um guri, de uns 20 anos, disse que só Jesus preenchia o vazio da vida. Pode ser. Porém, ele ainda não sabe o que é vazio da vida. Aos 40 anos o choque da existência mostra o que é vazio. É nessa fase da vida que se fica sem chão, independente de quaisquer circunstâncias. Sim, aos 40 ficamos sem chão. Aos 40 encontramos o vazio. É a virada da vida. Nada mais chocante e aterrador que saber que pode ter mais de passado do que de futuro. É o momento em que há a freada de arrumação no busão da vida. Arrumação ou desarrumação. Uns se desarrumam.

    Há muita coisa sobre as lobas, mulheres de 40, mas pouco sobre os homens. Arrisco-me a tatear sobre essas águas turvas da masculinidade, quando o cara pensa que talvez não seja macho o suficiente ou que é macho pra todos os gostos. E peço licença às meninas de plantão para ser macho no texto.

    Motivado pela personal sex Rita Rostirolla criei coragem para escrever sobre as mulheres de 40, as lobas. Quando a Rita lançou o desafio imediatamente eu disse que isso seria uma confissão dos meus desejos. Evidente que isso perpassa o texto. Alguém já disse que os livros são sempre autobiografias. Concordo. E, portanto, tudo que escrevo é uma forma de autobiografia, de confissão, de nudez. Minha sorte é a incapacidade de ''ler'' da maioria das pessoas. Ao tentar falar delas me ocorreu que deveria falar de mim, um homem de 46 anos, seis anos de experiência em plena crise dos 40. Ela não acabou!

    Vale lembrar que nunca uma mulher me perguntou o que seria a vida ou a sexualidade para um homem na minha idade. Uma pena... Dá a impressão que elas já sabem. Pode ser.

    Minha crise é profissional, sexual, conjugal, paternal, existencial numa mistura que não entendo ou sequer consigo diferenciar uma de outra. Quero conquistar, lamento as oportunidades perdidas, os erros infantis, os erros da indecisão, os erros das decisões, os erros que não errei, os erros dos outros sobre mim. Conto vantagens dos acertos como uma desesperada afirmação de mim mesmo. Afinal, se há um pedacinho de boia é nela que me agarro. Tipo: encontrei com a atriz Débora Bloch num caixa eletrônico em São Paulo e a Débora Secco me beijou (no rosto) num hotel em Floripa, um cara fotografou quando ela me abraçou e não o acho pra pegar a foto. Enfim, coisas inúteis que algum mentecapto dá valor. Ou algo como ser amigo do amigo do amigo...

    Seria capaz de encantar uma mulher? O casamento interrompeu o traquejo da juventude e desfalece o desafio de conquistar a mesma repetidas vezes. Se bem que eu jamais aprendi a abordar uma mulher. Uns raros da minha idade se mantiveram aptos na arte da conquista. Ainda mais inseguro, ou me achando bom de cama além de babar muito bem no travesseiro, fica a dúvida.

    Evidente que há considerável variedade sobre a maneira como os homens encaram a vida. Os religiosos, devotos, têm todas as certezas que o nada da religião pode dar. Os políticos anulam boa parte desses detalhes com o esforço empreendido na conquista do poder. Os empresários na luta para manter seus empreendimentos ou com planos de novos não têm tempo, ou pouca atenção dão nessas viagens que eu empreendo com prazer lúdico - como se brinquedo fosse. Há os que têm poucas expectativas na vida, que se acomodam com o que possuem, com a vida que o casamento proporcionou ou na satisfação em ver o desempenho de seus filhos. Enfim, não faltam mecanismos que anestesiam a consciência diante da agressividade de viver. O mundo é muito maior a cada dia é o conhecimento que me faz sofrer, sem que queira voltar à ignorância.

    Creio que uns raros, como eu, se dedicam a observar a vida nos mais variados aspectos. Por outro lado, seria tolice imaginar que arrazoar sobre a existência cobriria o mar de desejos mantidos latentes. Não, com certeza não. No vigor físico que me resta, apadrinhado pela experiência, hetero convicto, desejos ainda não realizados me movem... Ainda mais sabendo que lobas circulam por aí, cujos maridos não dão conta do recado ou têm outros interesses. Ah, mas sou casado! Sim, mas isso não anula os desejos, ''apenas'' limita quase por completo que se realizem.

    Contudo, os prazeres da vida, para mim, não passam por conquistas profissionais e muito menos materiais. Não me atrai a ideia de uma bela casa, mas de uma bela moto. Entre uma sala ou um quarto confortáveis eu fico com uma barraca num acampamento. Entre uma profissão que me dê mais grana eu prefiro ter menos grana e mais folga. Diante de livros técnicos eu prefiro os filosóficos. Talvez falte reconhecer que seja preguiçoso, que desista diante da dificuldade de ter sucesso financeiro e encontre justificativas para o insucesso. Tudo bem, sempre achei tão árduo o caminho do enriquecimento que dele desisti sem ao menos tentar.

    Sim, os testemunhos de quem abriu seu coração ao final da vida dão conta de que deveriam ter trabalhado menos e amado mais... Como eu disse, observo a vida e isso me leva a ver também o que os outros consideram sobre ela, não no anseio da juventude, mas no olhar sereno da maturidade.

    A morte é a derradeira mensagem da vida: desista!

    André.

    2 comentários:

    1. Ao ler e reler este texto, cheguei a algumas conclusoes (minhas obviamente).
      A primeira delas é que, ou eu nasci com corpo de mulher e cabeça de homem, porque nao discordo de uma linha do que voce escreveu, ou vice versa: é voce que esta no corpo errado.
      A outra conclusao é que a idade chega a todos, a maturidade a alguns mas a consciencia que uma depende da outra para desmistificar os rotulos impostos pela vida, é caso raro.
      E duro ver que o corpo organico envelhece (ainda que viril) enquanto a mente permanece jovial, quase adolescente. E, penso, que é justamente por essa via, que nos chega a crise.
      Se pudessemos bloca-la, quem sabe...
      A ultima conclusao, e por consequencia, a mais boba de todas é que eu nao deveria estar lendo isso, nao hoje...

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    2. Concordo que a passagem pelos é 40 marcante, porém, para mim, a passagem pelos 30 também o foi. Considero todas as décadas vividas marcos em nossas vidas.
      Seu texto é inquietante, porque faz refletir, trás a tona tudo aquilo que procuro manter adormecido dentro de mim.
      Parabéns pela coragem de publicar esse texto com tantos questionamentos, ainda mais confirmando que se trata de uma forma de confissão. Somente homens de verdade possuem tal disposição. Abraços! Marcia

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