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    TÁ BOM... EU ATIRO A PRIMEIRA PEDRA

    Leia o texto que está no capítulo 8 do evangelho de João, depois comento.

    "E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando.E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais."

    Pois bem. O que se tem visto é esse trecho ser usado como exemplo de perdão divino e da hipocrisia do povo que trouxe a mulher a Jesus. Contudo, há muito mais a ser visto. Há uma cultura local neste texto que perpetua-se em nossa sociedade. Os cristãos são inflexíveis quanto ao sexo. Quem dá uma pulada de cerca e frequenta uma igreja sabe muito bem da fúria puritana de que é alvo.

    Primeira observação é que Jesus não quis saber do homem envolvido. Algo como fazer o povo ver que o pecado não foi unicamente da mulher. Ele não diz ao homem: ''vai e não peques mais''.

    Segundo, Jesus não nega que tenha sido pecado. Tanto que a instrui em não pecar mais. Porém, não dá qualquer atenção às necessidades da mulher. Ora, por que estava transando com outro homem que não o seu? Todos sabemos que um caso como este é fruto de um desacordo num relacionamento. Jesus não se importou com os sentimentos dela. Não chamou seu marido para tratar da relação. Apenas determinou que não fizesse mais e dane-se as carências dela. Ela que vá chorar em seu travesseiro.

    Terceiro, diante do argumento de que todos teriam seu rabinho preso a turba recuou. Que mais humilde há em se reconhecer um erro? Eles estavam movidos por uma concepção da época, plenamente aceita na sociedade, e naquele momento entenderam que não estavam à altura de punirem-na. Isso é nobre.

    Quarto, Jesus diz que não condena. Entretanto, é por lembrar de outro texto, quando ele fala de divórcio: "Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério." (Mateus 5.32). Neste texto ela coloca a relação conjugal com uma mulher repudia, desprezada ou abandonada pelo marido, na condição de adúltera. E, assim, condenada espiritualmente, inclusive, como em vários textos dos apóstolos. Ora, de um lado perdoa com a condição de não fazer mais, de outro coloca em pecado mesmo não sendo numa condição de relação extraconjugal, mas pelo simples fato de haver uma relação conjugal.

    Quinto, quando Jesus diz "aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra" coloca todos contra a parede. Isso tem sido colocado como algo elogiável. Mas não é. Quando somos alvo de uma injustiça nos consolamos com isso? Pois é, caso fosse desse jeito todos nós, independentemente da agressão dos nossos erros diríamos: "Bá, também fiz uma bobagem". Neste texto não é levado em consideração a dimensão do pecado de cada um, mas todos estão no mesmo patamar. Ora, eu passo o sinal vermelho, vendo se não vem carro na outra rua. É errado? Sim, mas não coloca outros em risco. Se fantasio uma explicação para uma criança estou mentindo. Isso é pecado, porque mentir é pecado. Mas se furto alguma coisa ou se provoco um acidente em que alguém morre a coisa fica muitíssimo diferente. Entre aqueles acusadores certamente havia alguém cujos erros não afetavam outros, da mesma forma que se supõe havia alguém muito encrencado. O erro da mulher, e do homem que não aparece na história, envolvia os seus cônjuges e somente eles. Enfim, o que Jesus entendia sobre isso morreu consigo.

    Além de vermos uma clara depreciação da mulher em relação ao homem, tenho como claro dois pesos e duas medidas. Não há também uma insurreição ao modo de entender o casamento da época. Jesus vai na vala comum que hoje entendemos como preconceito. Quem se casa com uma pessoa divorciada, não sendo por prostituição ou adultério, estará fadado ao adultério e, por conseguinte, perdendo a salvação de sua alma.

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