Guinzani banner

Guinzani
  • Recentes

    É MANOEL...

    A tentação de Jesus no deserto, antes de começar seu ministério, logo após seu batismo (que por si só é absolutamente estranho à sua condição de Filho de Deus), é um dos muitos casos em que salta aos olhos o quanto mitológico é este livro chamado de Bíblia. Não bastasse o Dilúvio e a passagem pelo Mar Vermelho, vemos logo no início dos evangelhos, no capítulo quatro de Mateus, algo interessantíssimo que mantém-se vivo às custas da pouca ou nenhuma observação de coisas óbvias. Aliás, o óbvio é uma desgraça na teologia, pois ela o nega nas mais das vezes.

    Antes de tudo vale lembrar que Jesus teria tido em seu batismo uma experiência sobrenatural que certamente o preparou para tudo o que viria pela frente, inclusive uma investida de seu inimigo. Nesse episódio, igualmente mitológico, viu a pomba vir sobre si e ouviu a voz de Deus: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mateus 3:17). Até eu, em passando por isso, estaria preparado.

    Mas vamos ao texto e é nele que deve estar atento qualquer intérprete, crente ou descrente.

    "Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo."
    Vê-se que passar pela tentação não teve a anuência de quaisquer pessoas humanas. Ninguém exigiu teste algum para ele tornar-se Mestre. O Diabo, por sua vez, não fez um desafio como no caso de Jó, tampouco Jesus foi consultado. O texto apenas diz que o Espírito o levou, sem dizer qual o objetivo da tentação, sem qualquer explicação, excluindo Jesus de ir por sua própria vontade, montado num burrico. Ora, como conceber que os três envolvidos (Pai, filho e o bastardo) tinham dúvidas sobre a capacidade ou incapacidade dele de resistir a um ser que conhecia muito bem? Eram conhecidos de longa data. Só o desconhecido ou o que de fato desejamos nos tenta. Somente aquilo que supomos ser melhor ou dar prazer pode nos encher os olhos. Além disso, um cara que acaba de ser milagrosamente transportado vai deixar-se seduzir? Eis o óbvio: Não!

    Estaria Jesus pondo-se à prova para mostrar a si mesmo que era mais que humano? Poderia, mas para tanto não precisaria ser milagrosamente conduzido, bastaria o cotidiano para tal. Poderíamos supor que foi uma determinação divina, do Pai. Coisa que me parece ainda pior, haja vista que Ele conhece a natureza de todos, do que são capazes e incapazes, dos seus desejos mais íntimos.

    Se parece ruim, pode piorar: o Diabo recebeu Jesus numa situação em que poderia derrota-lo. Da mesma forma, o tal sabia da natureza do Messias. É impossível aceitar a possibilidade, a de tentar um Deus! Ah, Jesus estava na condição humana e não de Deus. Puxa, olha a Trindade sucumbindo. Mas mesmo assim, o Diabo poderia derrotá-lo? Essa derrota seria derrotar o próprio Deus em seu plano salvador. Bem, só se estabelecermos a possibilidade das profecias não serem cumpridas. E pode isso? Não seriam profecias.

    "Nem só de pão viverá o homem..."
    Chega a ser engraçado supor que a palavra de Deus nos sacie a fome física. Sim, ele estava com fome e o Diabo o desafia a prover-se de pão, o que tem tudo a ver. A resposta é dada numa outra direção, como se não entendesse a proposta ou estivesse delirando. Bastava um ''Não quero!". Se pretendia dar uma lição falou à pessoa errada. Ou, se a lição fosse para nós, numa alusão ao alimento espiritual, fê-lo de forma ridícula, pois certamente haveria de comer, tanto que foi alimentado por anjos. Ou seja, não transformou as pedras mas foi servido por anjos. Ora, muito maior tentação seria 40 dias sem comer diante de um banquete num palácio! E mais, se Jesus tinha poder de transformar pedras em pães desfaz-se sua ''natureza humana'' que muitos usam como argumento. Sim, se ele não pudesse fazer isso o Diabo não daria como sugestão.

    "Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo"
    Outro feito milagroso, espetacular, poderoso, o de ser transportado dessa forma. Um poder dado ao Diabo pelo próprio Deus. O Inimigo usa um belo argumento com vistas a Jesus assombrar os transeuntes com um feito impossível aos homens: "porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra." A despeito do momento vê-se que ao fim não foi alvo dessa providência. Contudo, é interessante observar que ele vai sem relutar. Ora, poderia dizer "Não transportarás o Senhor teu Deus". Como supor tal sujeição? Ao mesmo tempo Jesus não tem qualquer receio de mostrar-se poderoso em outro momentos ao multiplicar pães e peixes, por exemplo. Ao responder "Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus." Tá, e queria que Satanás respeitasse algum princípio de conduta? Além disso, Jesus se coloca como Deus num momento de condição humana. Isso apenas reforça a ideia de que a tentação e nada é a mesma coisa, pois Jesus estava no controle.

    "Novamente o transportou o diabo a um monte muito"
    Novamente Jesus é movido sem esboçar vontade. Que poder é esse que o Diabo tem? Poderia mover corpos de um lado para outro? Fê-lo apenas neste caso? Afinal, ninguém pode alguma coisa que Ele não permita e não dê.

    "Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares."
    Esta é a parte mais interessante. Ridículo pensar que o Diabo estivesse mentindo sobre ser dono justamente para quem sabia da verdade. Quem deu ao Diabo a posse dos reinos? Dizem alguns que os próprios homens o deram através de suas vidas pecaminosas. Então esses reinos eram dos humanos e estes entregaram sem se aperceberem do que estavam fazendo. Entrega inconsciente de posse é forçar demais. O que se vê é que os seres humanos buscam desesperadamente contato com este Deus, não o contrário. Se tomou o fez contra a vontade do Pai que, em tese, é dono de tudo. Teria poderes para tal? Certamente que não. O Eterno deixou que acontecesse ou os deu? Sim, Deus deu os reinos ao Diabo, mesmo que por omissão e negligência.

    Mesmo assim, qual o problema se o Salvador tomasse a posse de tudo? Não poderia resolver todas as pendengas que surgem entre humanos? Poderia. Pior ainda é pensar que Jesus deixaria de ser Jesus por um ato de adoração a quem estava submetido ao Pai. Como, por tudo que é mais sagrado, podemos supor que a natureza dos envolvidos, seus poderes e desejos, mudariam se cedesse à essa proposta que somente ambos saberiam? A postura física, de curvar-se, tem tal poder? Não, não tem. Não existe "ex-filho"!

    Mais um pouco. Ora, e os tais reinados deixariam de ser pecaminosos se passassem para as mãos de Jesus? Bem, Jesus negou-se em ser dono e quem é dono manda. Teria sido a oportunidade máxima de consertar tudo que havia de errado. Diriam outros, que isso não fazia parte dos planos. Sim, então porque a necessidade de ser tentado e justamente com a possibilidade de por ordem na casa de uma forma que não queria? Em entregando os reinos que poder teria Satanás sem tal patrimônio? E nada impediria Jesus de manifestar sua pregação, nem morrer na cruz, mesmo sendo dono do mundo como de fato o é. Afinal, como Filho e uno com o Pai, ser dono dos reinos do mundo é muito menos que o todo que possui.

    Os cristãos explicam que as riquezas dos reinos poderiam atrair Jesus e faze-lo mudar seus planos. Puxa, e qual o problema se um não exclui o outro? Como deixar de ser o Salvador porque passa a ser dono do ouro e da prata, a mesma riqueza que no Velho Testamento era de seu Pai? É um pensamento ignóbil achar que riqueza atrapalharia quem está na condição de Filho de Deus, cuja vida pregressa estaria muito acima de quaisquer bens.

    Conclusão
    Como esse tipo de piada nunca se esgota, não só o Espírito levou Jesus, mas o próprio Diabo o faz (verso 5). Que condição tem esse Inimigo de pegar Jesus e levar daqui para ali? Um poder dado pelo próprio Deus a alguém que tem como inimigo. Jesus se deixa tratar assim e isso soa tão normal para esses cristãos que imagino não estar diante dos mesmos fatos.

    Calma que tem mais: “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” (verso 7). Puxa, é mais ou menos o mesmo que dizer para um bandido: “Não furtarás”. Como supor que Satanás estaria interessado em cumprir preceito divino?

    Outro detalhe: “Vai-te, Satanás… Então o diabo o deixou” (versos 10 e 11). Jesus dá uma ordem e é obedecida imediatamente? Sim, é. E por que não o fez tão logo o capeta o tentou pela primeira vez? Quanto a isso só me ocorre deixar-se submeter à situação.

    Bem, não havia, como não há, maneira de ludibriar a Deus, nem a seu Filho, pois não deixariam de ser Pai e Filho se sucumbissem. Também não podemos colocar Satanás como um tolo, já que rivaliza com o Todo-Poderoso, a quem conhece na essência. Não havia determinação humana para que Jesus fosse testado. Da mesma forma a incredulidade humana não parece ter diminuído ou aumentado com este episódio. Ou seja, para nada serviu. Ainda mais que não houve testemunhas.

    Vê-se que se trata de mais um mito, da crendice que surge da imaginação humana e, como é fruto da credulidade e tradição oral da antiguidade, não resiste a um mero questionamento como este.

    Nenhum comentário

    Post Top Ad

    Post Bottom Ad