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    A CULPA DO NÃO-CULPADO

    De onde vem a culpa e para o quê nos leva?
    Por que temos culpa de umas coisas que outros não têm?
    E por que temos culpas de coisas que não deveríamos?

    Bertran de Born, condenado a ter a cabeça separada
    do corpo para sempre, por ter causado a separação
    de pai e filho. Ilustração de Gustave Doré (séc XIX).

    A moral (a ética praticada) e ética (conjunto das regras de comportamento, do certo e errado) são coisas dos humanos (mesmo que percebamos que animais também os têm de forma mais primitiva, obviamente) e de seus grupos, dos arranjos sociais ao longo do espaço/tempo. O certo e errado são, por conta de diversos fatores, relativos, circunstanciais. Se mudou do passado para o presente, mesmo dentro de uma cultura, então podemos supor que haverá mudanças do presente para o futuro. Assim, a culpa está ligada à ética construída nas relações sociais (comerciais, militares etc), das relações pessoais e daquilo que é considerado divino.

    Vamos a alguns desses fatores.

    Momento histórico - Uma coisa é o certo e errado em momentos de paz, outra é durante uma guerra, em que a fome assola os civis, por exemplo. Além disso, há o período em que se vive ou viveu. Estamos na América, mas diferente da nossa época foi o período pré-colombiano.

    Características familiares - Os ensinamentos dos pais, que receberam de seus pais, difere muito se pertencentes a uma tribo isolada na Amazônia ou se na periferia de São Paulo. Se é o homem ou a mulher que comanda o lar.

    Gênero - É evidente que o comportamento, de forma geral, de homens e mulheres é muito diferente. Por isso a construção de punições sociais e culpas são diferentes conforme o gênero.

    Idade e estado civil - Na medida em que se amadurece, da adolescência, ícone das travessuras humanas, indo à vida adulta, tendo ou não filhos, nos mudamos para algo melhor ou nos afundamos em lama.

    Condições econômicas - O herdeiro de uma fortuna tem, necessariamente, orientações diferentes do filho de uma mãe solteira que vive numa palafita nordestina.

    Herança genética - Você já deve ter visto ou ouvido falar de famílias inteiras que recorreram ao crime. Pesquise sobre os Bender, uma família de assassinos em série que possuíam uma pequena pousada no Kansas (EUA), onde os crimes eram realizados. A pousada funcionou de 1872 a 1873. Eles mataram dezenas de pessoas e jamais foram presos. Por aqui há muitas histórias de famílias de brigões, homens e mulheres violentos. Casos típicos de desarranjo genético.

    Relações sociais - O meio influencia, dita regras à margem da Lei, constrange pelo medo, faz surgir soluções que só se adequam àquele local ou circunstância, como viver numa favela dominada por traficantes, por exemplo.

    Religião - Essa, sem dúvidas, a mais influente da história. Contudo, ela mesma é, inicialmente, fruto de um meio, de concepções sobre Deus de um dado povo, num dado momento. Posteriormente, consolidada ao longo do tempo, passa a ditar as regras. Mas mesmo assim estará submetida ao entendimento de seus líderes a cada período. O cristianismo é um belo exemplo de mudança do certo e errado.

    Nesse pacote de influências as pessoas tem maior ou menor relação com uma delas, definindo, assim, a direção dos seus sentimentos de culpa. Num mesmo local teremos pessoas com culpas diferentes, mesmo que com um erro em comum.

    Para mim, a mais estranha das culpas é aquela em que o sujeito se pune por algo que não cometeu. Um dos casos mais doloridos é o de pais que se culpam porque um filho morreu ou ficou com a vida negativamente marcada. Provavelmente pelo senso de proteção que os bons pais têm. Não se perdoam porque não protegeram suas crias. Não há neles o senso de que os riscos são inerentes à vida.

    A culpa ou sua ausência determina comportamentos. Cabe a cada um perceber-se, perceber quais são suas motivações para sentir-se culpado. É uma análise difícil, mas necessária. Perdoar-se é retirar de si a culpa e sentir-se novamente leve. Contudo, há culpas que jamais poderão ser retiradas. Quando socialmente culpados ou mesmo limitado à nossa consciência, à nossa intimidade, levar-se-á pela vida aquele lembrança ou punição.

    O fato é que jamais deveríamos nos sentir culpados pela ideia de erro para com quem não tem qualquer meio de ser atingido, assim como insistem os religiosos e o que entendem como ''pecado''. Esse, sem dúvidas, é o mais temerário, circunstancial e tolo. Matar por matar é socialmente errado para nosso povo e época, não por ser pecado, contrapondo-se ao canibalismo fruto da religiosidade. É uma questão de espécie, de humanidade, não de Deus. Cristãos já mataram apenas porque o outro estava num local considerado sagrado, ou porque uma mulher foi tida como bruxa. Os exemplos são os mais diversos à mostrar que religião não está na lista dos determinantes sociais a que se deva dar crédito.

    O pecado é uma invenção humana para impor medo e dar autoridade ao ''representante'', já que Deus não poderia, em hipótese alguma, ser ofendido. Ou não seria Deus!

    Abraço a todos!

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